Entre as tantas coisas que podem mudar entre um governo e outro, dependendo do perfil político que estiver no comando do Brasil, está a quantidade de concursos públicos federais. Em ano de eleições, portanto, é interessante compreender como cada candidato planeja administrar essa questão, caso eleito.

No cenário atual, nenhum dos planos de governo, nem de Lula (PT), nem de Flávio Bolsonaro (PL) estabelecem metas numéricas que permitam calcular quantos editais serão publicados entre 2027 e 2030.

No entanto, Lula defende a continuidade das seleções e a realização periódica do Concurso Público Nacional Unificado (CPNU), enquanto Flávio menciona uma reforma do Estado, apontando para uma redução na estrutura administrativa e cortes nos ministérios, mantendo concursos em "carreiras típicas de estado".

Vamos entender melhor quais são as propostas e os diferentes cenários que podem se desenvolver nos próximos quatro anos?

Quantas vagas foram autorizadas por Lula e Bolsonaro?

Além das propostas de governo, os números dos últimos anos podem ajudar a dimensionar e entender quais podem ser esses cenários, observando os governos Lula anteriores e o governo de Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio.

Entre 2019 e 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), foram autorizadas 6.496 vagas em concursos públicos federais. Já na última gestão Lula, de janeiro de 2023 a setembro de 2026, o total chegou a 15.418 vagas.

Créditos: Lula Oficial e Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro
Lula e Flávio Bolsonaro não devem acabar com concursos, mas propostas são diferentes

O levantamento foi feito pelo jornal Folha de S.Paulo com base nas tabelas do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) e mostra que o segundo número é aproximadamente 2,37 vezes o primeiro.

A diferença, entretanto, não significa que o próximo governo Lula necessariamente repetiria o volume de autorizações registrado no mandato atual, nem que uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro reduziria os concursos na mesma proporção observada entre 2019 e 2022. A abertura de vagas depende de fatores como a necessidade de reposição de servidores, o orçamento disponível e as prioridades de cada órgão.

O levantamento baseado nas tabelas do MGI aponta uma diferença expressiva entre as duas administrações mais recentes. Para interpretar os números, porém, é importante ainda considerar que a autorização é uma etapa inicial: ela não significa que o edital já foi publicado ou que todas as vagas serão efetivamente preenchidas.

Comparativo de autorizações de concursos federais:

Indicador Governo Bolsonaro Governo Lula
Período analisado 2019 a 2022 Janeiro de 2023 a setembro de 2026
Vagas autorizadas 6.496 15.418
Diferença em relação ao outro período 8.922 vagas a mais
Fonte: levantamento da Folha de S.Paulo a partir das tabelas de autorizações do MGI. A contagem exclui cadastro reserva e autorizações posteriormente revogadas.

A comparação indica que o governo Lula autorizou mais vagas no período considerado. Mas há uma diferença importante na distribuição das oportunidades entre as carreiras.

Durante o governo Bolsonaro, 53,4% das vagas autorizadas foram destinadas à Polícia Federal, à Polícia Rodoviária Federal e ao então Departamento Penitenciário Nacional. Outros 17,3% foram direcionados a áreas de fiscalização e controle, como Receita Federal e Controladoria-Geral da União (CGU), enquanto 16,1% foram destinados a técnicos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Na gestão Lula, as carreiras policiais representaram 6,6% das vagas autorizadas, todas destinadas à Polícia Federal. A maior parcela, 75,5%, foi classificada como carreiras finalísticas de áreas como ciência e tecnologia, meio ambiente, regulação e políticas sociais.

O que os números dizem de cada um

A diferença não está apenas no volume de autorizações, mas também no perfil das carreiras priorizadas. No período Bolsonaro, houve concentração maior em segurança pública, fiscalização e controle. Ainda, Flávio já sinalizou preencher vagas em carreiras de estado, como na CVM, Banco Central, Tesouro e agências regulatórias.

No governo Lula, as autorizações contemplaram mais áreas ligadas à execução de políticas públicas e à atividade finalística dos órgãos federais, grande parte em Universidades Federais.

A comparação também precisa considerar o contexto econômico e administrativo. A pandemia de Covid-19 contribuiu para reduzir o foco em concursos e até para acumular necessidades de pessoal no serviço público federal. Parte das autorizações realizadas a partir de 2023 corresponde, portanto, a uma tentativa de recompor quadros que ficaram desfalcados ao longo dos anos.

O que Lula propõe para os concursos públicos?

O plano de governo de Lula para o período de 2027 a 2030 prevê a continuidade da valorização dos servidores públicos, do diálogo com as categorias e da modernização da gestão federal. O documento também contempla a continuidade da política de cotas no serviço público e ações para ampliar a presença da população negra no funcionalismo e nos postos de gestão.

Em relação aos concursos, o programa não estabelece um número de vagas nem um calendário de editais para o próximo mandato. A orientação mais específica veio de declarações da ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, durante a campanha.

Segundo a ministra, um eventual novo governo deverá priorizar entradas menores e mais constantes de servidores, em vez de concentrar grande volume de admissões em determinados períodos. Ela também defendeu a realização periódica do Concurso Público Nacional Unificado, com possibilidade de novas edições anuais ou bienais.

A avaliação do governo é que ainda há déficit de pessoal em áreas como Educação, Meio Ambiente, Administração e Defesa Civil. A ministra também afirmou que o planejamento futuro deverá considerar os efeitos da inteligência artificial e das ferramentas digitais sobre o trabalho no serviço público.

A proposta, portanto, aponta para a continuidade dos concursos federais, mas sem compromisso com um número específico de vagas.

O que Flávio Bolsonaro propõe para o serviço público?

O plano de governo de Flávio Bolsonaro apresenta uma proposta de reorganização administrativa, com redução de despesas e mudanças na estrutura do Estado. Entre as medidas previstas estão o corte de pelo menos dez ministérios, a redução de cargos comissionados e de gastos administrativos e a continuidade da reforma administrativa.

O documento também propõe combater supersalários e benefícios adicionais considerados excessivos, ampliar a digitalização dos serviços públicos e utilizar inteligência artificial na prestação de serviços e na gestão governamental.

Entretanto, o plano não apresenta uma meta específica para concursos públicos. Não há número de vagas a serem abertas ou reduzidas, cronograma de novas seleções nem compromisso de interromper os concursos federais.

A redução de ministérios e cargos comissionados pode modificar a organização administrativa, mas não significa automaticamente uma redução equivalente de cargos efetivos. Os cargos comissionados são destinados a funções de direção, chefia e assessoramento, enquanto os cargos efetivos são preenchidos, em regra, por concurso público.

Por isso, a proposta de enxugamento da máquina pública pode influenciar o planejamento de pessoal de um eventual governo Flávio Bolsonaro, mas não permite calcular quantos concursos seriam cancelados ou deixariam de ser realizados.

Lula e Flávio: comparação das propostas para os concursos:

Tema Lula (PT) Flávio Bolsonaro (PL)
Concursos públicos Continuidade das seleções federais Sem meta específica para novas seleções
Quantidade de vagas Não informada Não informada
CNU Defesa de edições periódicas, possivelmente anuais ou bienais Não há previsão específica no plano
Política para servidores Valorização e diálogo com as categorias Reforma administrativa e modernização das carreiras
Estrutura administrativa Compartilhamento de estruturas e racionalização de recursos Corte de pelo menos dez ministérios e redução de cargos comissionados
Tecnologia e digitalização Modernização da gestão e ampliação dos serviços digitais Digitalização dos serviços e ampliação do uso de inteligência artificial
Fonte: planos de governo e declarações de campanha.

Aposentadorias podem aumentar a necessidade

Um dos fatores que pode influenciar a abertura de novos concursos entre 2027 e 2030 é a quantidade de servidores federais que poderão se aposentar no período.

Levantamento do MGI publicado em dezembro de 2024 aponta que 53.862 servidores civis federais terão condições de se aposentar entre 2027 e 2030. O dado não significa que todos deixarão os cargos, já que parte dos servidores pode optar por continuar trabalhando. Ainda assim, o número evidencia uma necessidade potencial de reposição de pessoal.

A saída de servidores experientes pode afetar o funcionamento de órgãos públicos, especialmente quando não há planejamento para transferir conhecimento ou preparar novos profissionais. A reposição, entretanto, não precisa ocorrer necessariamente na mesma proporção das aposentadorias: o governo pode reorganizar equipes, redistribuir funções, digitalizar procedimentos ou priorizar determinadas áreas.

O desafio de qualquer nova administração será equilibrar essas alternativas com a necessidade de manter a prestação dos serviços públicos.

Quais concursos podem sair nos próximos meses?

Independentemente das propostas dos candidatos, existem concursos autorizados ou em preparação que podem avançar ainda em 2026. É importante diferenciar os certames autorizados, aqueles que já têm banca ou cronograma definido e os editais efetivamente publicados.

Concursos com banca definida, autorizados ou em preparação:

Concurso Vagas Situação em 15 de outubro de 2026
Receita Federal 146 Autorizado; contratação da banca em preparação. A Receita informou previsão de edital em dezembro de 2026.
Banco Central 170 Autorizado; prazo de até seis meses para publicação do edital a partir da portaria de julho.
Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) 50 Concurso autorizado para Especialista em Regulação de Proteção de Dados.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 27.279 Com banca definida (Cesgranrio), o edital está previsto para sair ainda em outubro de 2026
Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) não definido Com tem banca definida (FGV e Instituto AOCP) com edital previsto para sair entre o fim de 2026 e início de 2027.
Petrobras mais de 1.000 Com banca definida para a Cesgranrio
Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater) não definido Banca definida (Instituto Exata)
Fontes: MGI e Diários

A Receita Federal tem 116 vagas autorizadas para Analista-Tributário e 30 para Auditor-Fiscal. O órgão informou que iniciou o processo de contratação da instituição organizadora em setembro e estimou a publicação do edital em dezembro de 2026.

No Banco Central, são 100 vagas para Auditor, 50 para Técnico e 20 para Procurador. A autorização prevê prazo de até seis meses para a publicação do edital, contado da publicação da portaria em julho.

Já o concurso da ANPD oferece 50 vagas para Especialista em Regulação de Proteção de Dados, cargo de nível superior. A autorização foi publicada em junho de 2026.

No caso do CPNU 2, o MGI anulou em 6 de outubro o edital de convocação para vagas remanescentes após identificar inconsistências nos dados de três vagas, em um conjunto de 544. O ministério informou que consultaria novamente os órgãos e publicaria um novo edital de convocação até o fim do mês. Trata-se de uma recomposição de vagas já existentes, e não da abertura de um novo concurso com inscrições para novos candidatos.

No caso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as vagas prevista são para recenceador (nível médio), com salário a definir. A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), por sua vez, ainda não divulgou quais cargos estarão disponíveis, mas os salários devem girar entre R$ 11.464,35 a R$ 19.107,31 com base no último edital.

A Petrobras deve contratar pessoal de nível superior com salários de cerca de R$ 15,2 mil. E no caso da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), as vagas devem ser para assistente e analista (níveis médio e superior) com salários variando entre R$ 2.786,30 a R$ 10.302,00, segundo o último edital.

Concursos com edital publicado e inscrições em andamento

Além das seleções em preparação, dois concursos federais já têm edital publicado e cronograma definido.

Concurso Vagas imediatas Prazo de inscrição Prova prevista
Controladoria-Geral da União (CGU) 60 Até 4 de novembro de 2026 13 de dezembro de 2026
Câmara dos Deputados 66, além de 118 em cadastro reserva De 15 de outubro a 17 de novembro de 2026 17 de janeiro de 2027

A CGU oferece 60 vagas para Auditor Federal de Finanças e Controle, sendo 30 destinadas à área de tecnologia da informação. O cargo exige nível superior e tem remuneração inicial informada de R$ 20 mil. As inscrições estão abertas até 4 de novembro, e as provas serão aplicadas em 13 de dezembro.

A Câmara dos Deputados, por sua vez, publicou edital para 66 vagas imediatas de Analista Legislativo, além de cadastro reserva para outras 118 posições. As oportunidades contemplam especialidades como Jornalismo, Relações Públicas, Biblioteconomia, Arquivologia, Engenharia e outras áreas. As inscrições começam em 15 de outubro e seguem até 17 de novembro, com provas previstas para 17 de janeiro de 2027.

Esses concursos já estão em andamento e não dependem de uma nova autorização do governo que assumirá em 2027. No caso da Câmara, trata-se de uma seleção do Poder Legislativo, que possui estrutura própria de gestão de pessoal.