Após o governo anunciar que focaria na diminuição da fila de pedidos à espera de análise pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o avanço na velocidade das decisões veio acompanhado de outro movimento que chama atenção: o crescimento do número de benefícios indeferidos.

Dados do Ministério da Previdência Social mostram que o estoque de requerimentos pendentes caiu de 1,8 milhão em junho para 1,55 milhão no fim de julho, o menor nível em 21 meses. Considerando dados desde o início do ano, a redução da fila chega a 74% dos pedidos.

Ao mesmo tempo, os indeferimentos avançaram. Em junho, o número de benefícios negados se aproximou de 1 milhão. No acumulado de 2026, a quantidade de pedidos rejeitados aumentou 70% em relação ao mesmo período de 2025.

Entre os benefícios com maior volume de negativas estão os relacionados à incapacidade, como o auxílio por incapacidade temporária, o auxílio-acidente e a aposentadoria por incapacidade permanente.

Fila cai e indeferimento sobe

A redução da fila do INSS ocorre em meio a medidas adotadas pelo governo para acelerar a análise dos requerimentos. Para o Ministério da Previdência, o aumento das decisões ajuda a explicar o crescimento simultâneo de concessões e indeferimentos.

A pasta afirma que o indeferimento faz parte do processo normal de análise e ocorre quando os requisitos necessários não são cumpridos ou quando o segurado deixa de atender alguma exigência, como apresentar documentos ou cumprir prazos.

A diretora do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP), Jane Berwanger, porém, avalia que a combinação entre queda da fila e aumento das negativas pode transferir parte da demanda para outras etapas.

Segundo a especialista, pedidos negados podem resultar em novos requerimentos, recursos administrativos ou ações judiciais, aumentando a possibilidade de judicialização de questões previdenciárias.

Ela também aponta dificuldades na comprovação do direito aos benefícios, especialmente nos casos em que é necessário demonstrar incapacidade para o trabalho. Documentação médica insuficiente e problemas na avaliação pericial podem contribuir para decisões desfavoráveis.

Bônus para servidores acelerou análises

O especialista em Previdência Social Leonardo Rolim, ex-secretário de Previdência Social e ex-presidente do INSS, destaca que o aumento dos indeferimentos não significa necessariamente que exista uma irregularidade no processo.

Segundo ele, uma das principais medidas utilizadas para reduzir o estoque é o pagamento de bônus a peritos e servidores para acelerar a análise dos processos. Com mais requerimentos examinados, cresce também o número absoluto de benefícios concedidos e negados.

Rolim chama atenção, contudo, para a taxa de rejeição. Em junho, 54,2% dos pedidos analisados foram indeferidos, segundo os dados citados no material. O percentual é superior aos registrados em 2019, de 44,7%, e em 2022, de 49,5%, anos em que também houve pagamento de bônus.

Outra mudança adotada pelo INSS impede que o segurado apresente imediatamente um novo requerimento para o mesmo tipo de benefício enquanto o processo anterior ainda estiver em andamento. Um novo pedido só pode ser feito 30 dias após a primeira decisão.

A regra busca evitar que múltiplos requerimentos para o mesmo benefício aumentem ainda mais a demanda sobre o instituto. Por outro lado, especialistas observam que a medida pode dificultar a correção de problemas documentais ou a complementação de informações.

Mudanças no Atestmed

Outro ponto levantado por Rolim é a mudança no funcionamento do Atestmed, mecanismo utilizado pelo INSS para analisar pedidos de auxílio por incapacidade temporária com base em documentos médicos, sem necessidade imediata de perícia presencial.

Segundo o especialista, a substituição desse procedimento por avaliações presenciais pode ter contribuído para o aumento dos indeferimentos. Ele destaca que a análise médica mais rigorosa pode identificar situações em que os requisitos para concessão do benefício não foram comprovados.

Jane Berwanger também aponta uma mudança importante: anteriormente, o Atestmed não resultava diretamente em indeferimento em determinadas situações, permitindo que o segurado fosse encaminhado para perícia. Com as novas regras, a análise documental passou a ter maior impacto na decisão.

Governo explica aumento das negativas

O Ministério da Previdência Social informou que o crescimento dos indeferimentos precisa ser analisado junto com o aumento da quantidade de processos avaliados pelo INSS.

Segundo a pasta, quanto maior o número de requerimentos analisados e quanto mais rapidamente os processos acumulados são decididos, maiores tendem a ser os números absolutos de concessões e indeferimentos.

O governo informou ainda que a taxa de concessões registrada no primeiro semestre de 2026, de 49,5%, está próxima da média histórica recente do instituto.

Para quem recebe uma decisão negativa, existe a possibilidade de apresentar recurso administrativo gratuitamente ao Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS). O prazo é de até 30 dias após a decisão.

O Ministério ressalta que o recurso permite a reavaliação do processo quando o segurado discorda da análise ou apresenta novos elementos. O cidadão também pode buscar a Justiça caso julgue necessário.