Com a proximidade da Mega da Virada e a divulgação de prêmios bilionários, cresce também a atuação de criminosos que se aproveitam do sonho de ganhar na loteria para aplicar golpes antigos, porém ainda extremamente eficazes.

Entre eles, o chamado golpe do bilhete premiado voltou a preocupar autoridades, bancos e apostadores, principalmente idosos, que costumam ser os principais alvos da fraude.

A expectativa de mudar de vida da noite para o dia, aliada ao clima de fim de ano, cria um ambiente perfeito para que golpistas explorem a emoção, a pressa e a confiança das vítimas.

Mesmo sendo um esquema conhecido há mais de um século, o golpe segue fazendo vítimas milionárias em diferentes regiões do Brasil.

Como é o golpe do bilhete premiado

O golpe do bilhete premiado é uma fraude clássica, registrada no país desde o início do século XX. Ele consiste em convencer a vítima de que um bilhete de loteria é vencedor, mas que seu suposto dono não pode sacar o prêmio por algum motivo específico, como religião, problemas de saúde ou falta de documentos.

A partir disso, os criminosos oferecem o bilhete em troca de dinheiro, bens ou transferências bancárias, prometendo dividir um prêmio inexistente. Quando a vítima percebe a fraude, o prejuízo financeiro já é irreversível.

Como os criminosos agem na prática

O esquema costuma envolver pelo menos dois golpistas. Um deles aborda a vítima afirmando ser o dono do bilhete premiado. Ele geralmente aparenta simplicidade, humildade ou até vulnerabilidade emocional, criando empatia imediata.

O segundo criminoso surge como um "desconhecido solidário", que se oferece para ajudar. Esse cúmplice simula ligações para uma falsa gerente da Caixa Econômica Federal ou para um suposto funcionário do banco, confirmando que o bilhete é vencedor e dando aparência de legitimidade à história.

Em muitos casos, os criminosos utilizam documentos falsos, crachás, celulares com contatos salvos como "gerente da Caixa" e até envelopes que simulam conter dinheiro ou comprovantes.

Casos recentes chamam a atenção

Câmeras de segurança em São Paulo registraram recentemente a ação dos irmãos contra um idoso de 88 anos.

Um deles alegou não poder sacar o prêmio por motivos religiosos, enquanto o outro fingiu intermediar o contato com a Caixa. O idoso acabou entregando cerca de R$ 70 mil em troca de um envelope recheado apenas com papel picado.

Outros casos mostram prejuízos ainda maiores. Uma vítima contraiu um empréstimo de R$ 100 mil após ser convencida por duas mulheres que diziam dividir um prêmio de R$ 13 milhões. Em São José dos Campos, uma idosa perdeu aproximadamente R$ 3,25 milhões em 14 depósitos realizados ao longo de um mês, esgotando economias e assumindo dívidas antes de perceber a fraude.

Golpistas escolhem vítimas vulneráveis

Apesar de amplamente divulgada, a fraude ainda funciona porque os golpistas escolhem cuidadosamente suas vítimas e utilizam técnicas sofisticadas de persuasão. Eles costumam atuar próximos a bancos, casas lotéricas e áreas comerciais movimentadas, vestem-se bem e falam com segurança.

Especialistas em comportamento alertam que a pressão psicológica é um dos principais fatores do sucesso do golpe.

Os criminosos criam sensação de urgência, afirmando que o prêmio pode ser perdido a qualquer momento. Após o prejuízo, muitas vítimas deixam de denunciar por vergonha ou medo de julgamento.

Segundo a Polícia Civil, apenas em São Paulo, o Departamento de Investigações Criminais (Deic) registrou 382 casos do golpe até dezembro de 2025. A estimativa é de que o número real seja bem maior, devido à subnotificação.

A Caixa reforça que não faz conferência de bilhetes por telefone, aplicativos de mensagens ou intermediários. A verificação de apostas premiadas ocorre exclusivamente de forma presencial, nas agências ou lotéricas credenciadas.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) orienta que ninguém entregue dinheiro, bens ou faça transferências a desconhecidos com promessa de prêmios. Em caso de tentativa ou confirmação de golpe, a recomendação é registrar imediatamente um boletim de ocorrência.

Como evitar o golpe do bilhete premiado

Algumas atitudes simples podem evitar grandes prejuízos:

  • Nunca acredite em bilhetes premiados oferecidos na rua - se o bilhete fosse mesmo premiado, a pessoa iria pessoalmente retirar o valor sem avisar ninguém;
  • Desconfie de histórias envolvendo religião, urgência ou sigilo;
  • A Caixa não pede dinheiro para liberar prêmios;
  • Nunca faça transferências ou saques para desconhecidos;
  • Converse com familiares antes de qualquer decisão financeira;
  • Sempre denuncie tentativas de golpe à polícia para evitar que isso ocorra com outros.

Essas orientações são especialmente importantes para idosos, que devem receber atenção redobrada da família nesse período.

Mega da Virada aumenta risco de golpes

A Mega da Virada é o concurso especial da Mega-Sena realizado todo dia 31 de dezembro e não acumula. Caso ninguém acerte as seis dezenas, o prêmio é dividido entre os acertadores da quina. Com prêmios que já ultrapassaram a casa dos R$ 1 bilhão e estimativas bilionárias, o sorteio ganha enorme visibilidade nacional.

As apostas podem ser feitas até as 20h do dia 31, em lotéricas ou pelos canais digitais da Caixa. O valor da aposta simples é de R$ 6, mas é possível marcar até 20 números, elevando o custo e as chances.

Especialistas lembram que, mesmo com bolões e apostas mais caras, a Mega da Virada continua sendo um jogo de probabilidade extremamente baixa. Por isso, o jogo deve ser encarado como entretenimento, nunca como investimento.