O concurso da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), que reuniu mais de 87 mil inscritos, passou a ser alvo de investigações da Polícia Civil do estado, que busca esclarecer se o candidato encontrado com dispositivos eletrônicos durante a realização da prova teria ligação com uma organização ligada a fraude em concursos públicos.

Paralelamente, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) apura uma denúncia de possível favorecimento envolvendo uma candidata ao cargo de procurador legislativo. Os casos estão em apuração e, até o momento, não há confirmação de que exista indícios de uma possível anulação das provas. As informações foram divulgadas por veículos de imprensa com base em relatos das autoridades e manifestações dos órgãos envolvidos.

Candidato preso durante prova

Alexandre Campos Oliveira acabou preso em flagrante em 8 de fevereiro de 2026, enquanto realizava a prova para o cargo de Especialista Legislativo. O exame ocorreu na Unisuam, em Bonsucesso, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Segundo a Polícia Civil, o candidato utilizava um ponto eletrônico e óculos adaptados com um chip, que poderiam ser usados para registrar imagens da prova. A investigação aponta que ele teria tentado fotografar o caderno de questões com um celular.

Óculos adaptado com chip apreendido durante concurso no RJ - Créditos: Divulgação/G1
Óculos adaptado com chip apreendido durante concurso no RJ - Créditos: Divulgação/G1

Segundo o processo, o candidato inicialmente colocou o aparelho celular no saco plástico reservado para os telefones. Na sequência, porém, solicitou que a embalagem fosse aberta, afirmando que precisava conferir se algum alarme estava ativado. Aproveitando um momento de menor atenção da equipe de fiscalização, ele teria retirado o celular e ocultado o dispositivo.

Uma candidata que realizava a prova na mesma sala teria percebido que Alexandre estava fotografando o conteúdo e comunicou o fato aos fiscais. Durante a abordagem, ele teria tentado destruir um papel que trazia orientações sobre os equipamentos e colocado na boca um pequeno saco plástico onde estava o ponto eletrônico. A equipe de segurança conseguiu recuperar o material.

Após passar por audiência de custódia, ele foi liberado. O Ministério Público recorreu da decisão e solicitou prisão preventiva, argumentando que a medida seria necessária para preservar a investigação e a produção de provas. A Justiça acolheu o pedido e Alexandre foi novamente detido em 15 de setembro, durante uma operação policial.

Ponto eletrônico usado durante concurso no RJ/Créditos: Divulgação/G1
Ponto eletrônico usado durante concurso no RJ/Créditos: Divulgação/G1

A investigação é conduzida pela Delegacia de Bonsucesso, a 21ª DP. A Polícia Civil aguarda a conclusão da perícia realizada no celular apreendido. A análise deverá ajudar a investigação a esclarecer se o candidato contou com apoio de outras pessoas e identificar possíveis envolvidos no esquema.

O delegado assistente da unidade, Mário Albert, afirmou que os investigadores buscam esclarecer se o suspeito agiu sozinho ou se fazia parte de uma estrutura maior voltada a fraudar concursos em diferentes regiões do país.

MPRJ investiga denúncia de favorecimento

Em uma investigação distinta, o MPRJ analisa uma denúncia relacionada a um possível favorecimento de uma candidata que disputou o cargo de procurador legislativo da ALERJ.

O procedimento preparatório de inquérito civil foi aberto em 23 de julho de 2026. Conforme as informações divulgadas sobre o caso, a candidata exercia a função comissionada de chefe de gabinete do diretor-geral da Assembleia e teria, segundo a denúncia, acesso a informações consideradas privilegiadas durante o processo.

O Ministério Público solicitou esclarecimentos à ALERJ e à Fundação Getulio Vargas (FGV), responsável pela organização do concurso, além de outros órgãos relacionados ao caso. A investigação tramita sob sigilo.

A Assembleia disse que não irá comentar o caso enquanto o procedimento estiver sob sigilo. Segundo a instituição, a servidora deixou o cargo em março de 2026. Até o momento considerado para a publicação das informações, a FGV não havia apresentado manifestação sobre o caso.

"A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) já apresentou todas as informações solicitadas pelo Ministério Público, mas não comentará sobre o caso, pois o procedimento mencionado encontra-se sob sigilo. A servidora mencionada foi exonerada em março deste ano."

As suspeitas envolvendo o concurso também foram mencionadas em dezembro de 2025, quando o ex-governador Anthony Garotinho afirmou ter recebido informações de uma fonte anônima sobre uma suposta venda de vagas.

Segundo o relato apresentado no podcast "PODE, GAROTINHO?", candidatos pagariam uma entrada de R$ 5 mil pela vaga mais barata e quitariam o restante após o concurso, em parcelas que seriam descontadas da folha de pagamento. A denúncia também mencionava outros concursos organizados pela mesma banca.

O deputado estadual Márcio Gualberto, que participou da entrevista, afirmou não ter conhecimento prévio das acusações e disse que apresentaria um requerimento para pedir investigação. As alegações de venda de vagas não foram comprovadas.

Concurso ALERJ teve 101 vagas e mais de 87 mil inscritos

O concurso da Assembleia Legislativa do RJ ofereceu 101 vagas, distribuídas entre cargos de níveis médio e superior, além de oportunidades para procurador legislativo. O certame é organizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e registrou 87.673 inscritos.

As remunerações iniciais são de até R$ 44.008,52 para Procurador Legislativo, com três vagas e exigência de formação superior em Direito.

As investigações policiais e do Ministério Público seguem em andamento. Até que sejam concluídas, as suspeitas devem ser tratadas como alegações em apuração, sem antecipar conclusões sobre a participação de outras pessoas ou a regularidade geral do concurso.

As publicações sobre o andamento concurso estão na página da FGV.