A possibilidade de fazer um concurso público com provas online pode parecer distante da realidade brasileira, especialmente para quem está acostumado a realizar provas presenciais, consultar resultados em diferentes plataformas e acompanhar etapas que, muitas vezes, se estendem por meses.
Em outros países, porém, essa tecnologia já vem sendo incorporada de diferentes formas aos processos de seleção de servidores. Um diagnóstico elaborado pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) via Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), analisou modelos de recrutamento do serviço público em 12 países e identificou diferentes níveis de digitalização. Entre as experiências estão sistemas que integram etapas do processo seletivo, plataformas para inscrições e acompanhamento de resultados e ferramentas de análise de dados.
O estudo, intitulado Diagnóstico dos Concursos Públicos pelo Mundo, foi publicado em julho de 2025 e reúne informações de como ocorrem as seleções em países como Alemanha, Argentina, Canadá, Chile, China, Espanha, Estados Unidos, França, Índia, Portugal, Singapura e África do Sul.
A análise mostra como esses governos selecionam servidores. Em muitos casos, a tecnologia atual baseada em IA já é utilizada para organizar inscrições, acompanhar candidaturas, padronizar procedimentos e dar mais transparência às seleções.
Como outros países utilizam a tecnologia nos concursos públicos
Embora cada país tenha suas próprias regras e estruturas administrativas, o levantamento identificou um crescimento expressivo do uso de plataformas digitais em etapas como inscrições, provas e homologações.
As experiências, entretanto, apresentam diferenças importantes. Confira alguns dos exemplos destacados pelo diagnóstico feito pelo MGI.
China: sistema integrado do recrutamento à nomeação
A China aparece no estudo como um dos exemplos de digitalização avançada. O país utiliza plataformas tecnológicas integradas que permitem acompanhar todo o ciclo de recrutamento, desde a inscrição dos candidatos até a nomeação dos aprovados.
O modelo também conta com mecanismos de controle e prevenção de fraudes, além de procedimentos de verificação de idoneidade. A estrutura é centralizada, com diretrizes nacionais rígidas e pouca autonomia local para a condução dos processos seletivos.
Para o Brasil, o diagnóstico aponta que as ferramentas tecnológicas e os mecanismos de controle podem servir de inspiração para a modernização dos concursos. No entanto, ressalta que o modelo chinês não é diretamente transferível à realidade institucional brasileira.
Singapura: tecnologia em todas as etapas
Singapura também apresenta um modelo de digitalização abrangente. Segundo o relatório, plataformas tecnológicas avançadas integram as diferentes etapas da seleção e permitem a análise de dados em tempo real.
O sistema está associado a um planejamento estratégico de pessoal, que busca identificar necessidades futuras da administração pública e mapear competências e perfis profissionais.
Além da seleção, o país integra o recrutamento ao desenvolvimento da carreira dos servidores, com acompanhamento de desempenho e incentivos relacionados a resultados.
Espanha: inscrições e acompanhamento pela internet
Na Espanha, o estudo destaca a existência de um sistema digital centralizado para inscrições e acompanhamento dos processos seletivos.
A estrutura também prevê transparência nos critérios de avaliação e na divulgação dos resultados, além de procedimentos normatizados para o recrutamento de servidores.
Apesar dos avanços, o diagnóstico aponta dificuldades que ainda precisam ser enfrentadas, como o tempo prolongado entre a publicação do edital e a nomeação dos aprovados, a burocracia e a resistência a mudanças metodológicas.
Portugal: digitalização parcial e processos híbridos
Em Portugal, a digitalização avançou, mas ainda convive com procedimentos tradicionais. O diagnóstico classifica o modelo como parcialmente digitalizado, com processos híbridos e elementos que ainda dependem de práticas convencionais.
O país também apresenta estabilidade administrativa e coordenação entre diferentes ministérios, características que contribuem para a previsibilidade das seleções.
O desafio identificado é ampliar a inovação e modernizar os procedimentos sem comprometer a estabilidade institucional.
Transparência e inclusão
A digitalização dos concursos não envolve apenas a possibilidade de realizar provas pela internet. Segundo o diagnóstico, ferramentas tecnológicas também podem contribuir para reduzir custos administrativos, facilitar o acesso às informações e tornar os processos mais transparentes.
O levantamento destaca que o uso de plataformas digitais pode simplificar inscrições, permitir o acompanhamento das etapas e melhorar a organização dos dados dos candidatos.
Outro ponto importante é a inclusão. O estudo mostra que diferentes países adotam políticas de ação afirmativa e mecanismos de acessibilidade, embora com formatos distintos. Na Espanha, por exemplo, são destacadas políticas de inclusão para pessoas com deficiência. Já Índia e África do Sul possuem estruturas específicas de reserva de vagas e ações voltadas a grupos historicamente desfavorecidos.
A tecnologia pode contribuir para acompanhar essas políticas e monitorar seus resultados, desde que esteja associada a regras claras e mecanismos de fiscalização.
O Brasil pode adotar concursos totalmente online?
O diagnóstico internacional apresenta a digitalização e a transparência como pilares importantes para a modernização dos concursos públicos brasileiros. Entretanto, o documento não propõe simplesmente substituir as provas presenciais por avaliações remotas.
Entre as recomendações estão a ampliação do uso de ferramentas digitais, a melhoria da integração entre sistemas e o fortalecimento da coordenação nacional dos processos seletivos. O estudo também ressalta que a modernização precisa considerar as desigualdades regionais e as limitações de infraestrutura tecnológica existentes no país.
Um dos desafios identificados é justamente a baixa interoperabilidade entre sistemas, ou seja, a dificuldade de diferentes plataformas compartilharem informações e funcionarem de maneira integrada.
O relatório sugere, entre os possíveis próximos passos, a realização de projetos-piloto inspirados em experiências internacionais, com acompanhamento e avaliação dos resultados antes de uma eventual ampliação.
Assim, a experiência de outros países mostra que o futuro dos concursos públicos não depende necessariamente de eliminar as provas presenciais.
Luana é jornalista graduada (MTB/RS 18705) e Mestra em Letras pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Atua como redatora no portal Ache Concursos.



