A liquidação extrajudicial do Will Bank expôs um dos episódios mais delicados do sistema financeiro recente, atingindo milhões de brasileiros que usavam o banco digital para despesas básicas do dia a dia.
Com contas bloqueadas, cartões inutilizados e ausência de um prazo claro para reembolso, clientes de renda média e baixa passaram a viver uma rotina de incerteza desde a intervenção decretada pelo regulador. O caso ganhou ainda mais repercussão por estar ligado ao efeito dominó provocado pela crise do Banco Master, que já levou ao encerramento de ao menos sete instituições desde novembro.
O impacto social do fechamento do Will Bank é considerado um dos mais severos entre os episódios recentes de liquidação. A instituição afirmava ter cerca de 12 milhões de clientes, dos quais aproximadamente 60% estavam no Nordeste, muitos em cidades pequenas, onde o banco digital era a principal, ou única, porta de acesso a serviços financeiros.
A situação do Will Bank se agravou após a liquidação extrajudicial do Banco Master. A crise gerou um efeito cascata sobre empresas e instituições ligadas ao grupo, culminando na decisão do Banco Central do Brasil de encerrar as operações do banco digital em janeiro de 2026.
Antes disso, o Will já enfrentava dificuldades operacionais. Em 19 de janeiro, a instituição deixou de honrar compromissos com a Mastercard, o que levou ao bloqueio imediato dos cartões. Dois dias depois, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial, encerrando oficialmente todas as atividades.
Dinheiro bloqueado e contas do dia a dia
Clientes ouvidos por veículos de imprensa relatam que os recursos mantidos no Will Bank eram usados para despesas essenciais, como alimentação, aluguel, medicamentos e contas de luz.
Com o bloqueio, muitos afirmam que não conseguiram pagar compromissos básicos e temem entrar em inadimplência. Apesar da gravidade da situação, a forma de devolução dos valores depende do tipo de produto utilizado pelo cliente, o que gera ainda mais confusão e ansiedade.
Quem tem direito à cobertura do FGC
Investidores que aplicaram recursos em CDBs, LCIs ou LCAs do Will Bank estão protegidos pelo Fundo Garantidor de Créditos.
- O FGC funciona como uma espécie de seguro do sistema financeiro e garante a devolução de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição.
O fundo estima desembolsar cerca de R$ 6,3 bilhões com a liquidação do Will Bank. Os pagamentos devem começar entre 30 e 60 dias após o recebimento da lista oficial de credores, que ainda está em elaboração pelo liquidante nomeado pelo Banco Central.
O processo é totalmente digital. Pessoas físicas solicitam o reembolso pelo aplicativo do FGC, enquanto empresas utilizam o site oficial. Após a conferência das informações, o valor costuma ser depositado em até 48 horas úteis.
No dia 13 de fevereiro, o FGC antecipou pagamentos de até R$ 1 mil para parte dos clientes, numa tentativa de aliviar a situação de cerca de 6 milhões de pessoas. Quem tinha valores maiores ou investiu por meio de corretoras, porém, ficou fora dessa antecipação.
Contas de pagamento: por que o dinheiro não tem prazo
O maior drama envolve os clientes que utilizavam apenas a conta digital do Will Bank. Essas contas são classificadas como contas de pagamento, não como contas correntes bancárias tradicionais. Por isso, não contam com a cobertura do FGC.
Ainda assim, a legislação determina que os valores mantidos nessas contas fiquem separados do patrimônio da instituição. Na prática, isso significa que o dinheiro não entra na fila comum de credores e deve ser devolvido integralmente aos clientes, sem limite de valor.
O problema é o prazo. A restituição só pode começar depois que o liquidante concluir a identificação e a conferência de todos os saldos, além da elaboração da lista oficial de credores, um processo complexo, sem data definida para terminar.
Em princípio, esses valores não entram no rateio com outros credores e precisam ser repassados diretamente aos clientes. Ainda assim, o prazo para a devolução não é imediato, pois está condicionado às etapas do processo de liquidação e à verificação detalhada dos saldos individuais.
Durante esse período, o aplicativo do Will Bank tende a permanecer disponível apenas para consulta, sem permitir movimentações. Em geral, os clientes são orientados a informar uma conta em outra instituição para receber os valores quando forem liberados.
Enquanto isso, dívidas seguem válidas. Faturas de cartão já lançadas continuam sendo cobradas, com possibilidade de juros e negativação. As chaves PIX vinculadas ao Will Bank foram desativadas, e novas transações não são permitidas.
O que os clientes podem fazer agora
Os clientes devem guardar extratos, comprovantes de saldo e registros das movimentações existentes na data da liquidação. Também é fundamental acompanhar comunicados oficiais do Banco Central, do liquidante e do FGC.
Apesar da liquidação, o aplicativo do Will Bank ainda permite visualizar saldos, limites e valores a pagar. No entanto, operações como transferências, PIX e pagamentos não são concluídas.
Em casos de urgência extrema ou demora excessiva, é possível recorrer à Justiça. Ações individuais podem ser movidas para cobrar informações ou acelerar a restituição, inclusive com pedidos direcionados à administração da liquidação.
Criado em 2017, no Espírito Santo, o Will Bank começou como pag! e tinha foco inicial em cartão de crédito. Em 2020, adotou a marca atual e se consolidou como banco digital. Recebeu investimentos relevantes em 2021, expandiu produtos e chegou a divulgar lucro no primeiro semestre de 2024. Pouco tempo depois, porém, a virada negativa expôs fragilidades que culminaram na intervenção e no encerramento das operações.
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